
Dia estranho. “O mais estranho dos dias”, diz uma propaganda sobre algo que não consigo lembrar. Era um dia para eu estar eufórico com uma excelente notícia que recebi ontem à noite, mas não. Passei um dia tenso, após uma madrugada igualmente tensa, perdida em falsos lenitivos.
Daria tudo para ser portador de uma felicidade boba, do tipo que fica tendo ataques de risos por qualquer coisa e que não está nem aí para nada. Mas não o sou, e isso é um fato. Só disfarço na maior parte do tempo. Ainda durante a madrugada conclui que este dia seria de reflexão e decisões difíceis. Ele anda não acabou, e por enquanto foi só de reflexões.
Procuro atentar para o que poderíamos chamar de os sinais da vida. Em dias difíceis meu lado espiritual aflora, coisa que dá aos detratores da religião aquele velho argumento de que ela é para os fracos, mas os mesmos não dão nenhuma solução eficaz para os dilemas dos ditos “fracos”. O que sei é que procuro insistentemente encontrar em mim o animal que agiria por instinto diante das mais diversas situações, e é claro, a minha sobrevivência seria a prioridade. Ou em palavras mais condizentes com a condição humana, o meu bem-estar. Mas não consigo.
Em minha busca pela felicidade – redeflagrada conscientemente há pouco mais de um ano – descobri que ela é na verdade um verdugo que me atormenta desde a mais tenra idade, com os grilhões de uma eterna insatisfação, uma sensação de que algo está me faltando, que estou aquém das possibilidades. E percebo que estou novamente em uma encruzilhada ao me deparar na TV com filme “Meu nome é Rádio”- uma história real – onde fui confrontado com um bom exemplo do dever de fazer o bem, algo que tenho me esquecido em minha jornada egoística. E na seqüencia, no filme “As Pontes de Madison”, fui terrivelmente afrontado com algo que aterroriza alguns (muito a mim): um espelho da minha realidade, ainda que com um reflexo parcial, não tão nítido, não fidedigno. Ele me jogou na cara a certeza que há decisões muito difíceis na vida. E as que mais me atormentam envolvem não só a minha felicidade ou infelicidade, mas principalmente o sofrimento de outros. E sempre detestei causar sofrimento. Exceto aos meu inimigos, admito.
Sou de uma dualidade perturbadora – hoje talvez mais visível do que gostaria – pois posso ser um santo ou um devasso, extremamente cruel ou extremamente bondoso. Algo como se, superlativando, fosse simultaneamente detentor de um Nobel da Paz e de uma condenação por crimes de guerra. Tento trilhar o Caminho do Meio, porque conheço meus extremos. Tenho sido bem-sucedido e ao mesmo tempo não, pois as consequências desse caminho em minha vida podem ser superficialmente detalhadas parafraseando o personagem de Reinaldo Gianecchini no filme “Entre Lençóis”: nos processos da vida, principalmente nos afetivos, fui colocado em uma caixa, incitado a ser o que outros queriam e no fim não sou nem o que queriam e nem o que eu era. Muito menos o que eu queria ser. Me perdi de mim mesmo. Hoje, acho aos poucos fragmentos de mim espalhados por aí em rascunhos, crônicas e poemas…
Ao término de “As Pontes de Madison” olhei no relógio e me peguei tendo saudades do que nunca vivi, tendo temores inexplicáveis de perder aquela que nunca foi minha. E ainda não sei como perder o que quero perder ou como fazer para desembrulhar os presentes que tenho recebido imerecidamente de Deus enquanto anseio por aqueles que julgo que mereço. Viver não é fácil, mas a gente complica. É fato.
Então, há muito tempo não me brotava um choro convulsivo, gerado por algo que me tocasse tão profundamente as emoções. Um espelho da vida é sempre perigoso nesse sentido, pois pode acabar com aquele ar de indestrutibilidade que por vezes construímos com tanto esmero. Nessas horas e nessas lágrimas, só permito Deus como testemunha. E ninguém há de me julgar melhor do que Ele.
TLX
“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade”.
Carlos Drummond de Andrade
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Hoje não estava ouvindo nada enquanto escrevia. Mas talvez as músicas “Amor para recomeçar” e “Homem não Chora” do Frejat teriam sido adequadas…
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“eterna insatisfação, uma sensação de que algo está me faltando, que estou aquém das possibilidades.”
“Sou de uma dualidade perturbadora ”
“olhei no relógio e me peguei tendo saudades do que nunca vivi, tendo temores inexplicáveis de perder aquela que nunca foi minha.”
Não é que tudo tenha dois lados. É que tudo tem uma multiplicidades de lados, um caleidoscópio de escolhas, que agora são e daqui a pouco já não mais, que ora nos esgotamos. São muitas respostas exigidas, perguntas engolidas, atravessadas na garganta. E seja rápido, pq o relógio não pára.
O choro é a catarse. Depois da ebulição causada no corpo, na alma, vem a lágrima pra lavar a devastação. E agora respira. Fundo. Uma coisa de cada vez.
Esses momentos vulcânicos são importantes. Só não deixemos que as lavas fiquem a nos queimar por muito tempo.
Beijos, querido…
Nem todo mundo tem o dom de reconhecer a sensibilidade em suas mais profundas formas. Esse escritor o tem. O bom escritor é aquele que consegue transformar sensações em palavras, o verdadeiro homem tem a capacidade de reconhecer e admitir seus sentimentos e permitir que eles aflorem sem medo. É isso que de certa forma imortaliza uma pessoa dentro de cada um de nós, pois é impossível esquecer palavras que tocam tão profundamente a alma. Eu pelo menos não esqueço.
Parabéns!